SUCESSO MATRIMONIAL
Estavam
na sacada do 10º andar de um prédio comercial. A vista dava para uma parte da
cidade ainda não dominada pelos arranha-céus. Podiam-se ver os quintais das
casas que ali conviviam com imóveis comerciais, uns poucos prédios, uma avenida
que sumia no horizonte, um shopping center, uma piscina abandonada de uma casa
colocada à venda havia anos, dentre várias outras coisas que, no fim,
resumiam-se, praticamente, a concreto e asfalto. As árvores eram item raro.
Ele
gostou daquela escassez de edifícios que cobrissem o horizonte e resolveu
aproveitar a vista. Tirou uma foto com a paisagem ao fundo, somente ele e a
paisagem, nada mais importava; pelo menos foi isso que ela enxergou. Estava
ali, ao lado dele, mas não foi convidada para aparecer na foto, que seria
exposta na internet, nas redes sociais. Ela não pertencia mais aos momentos
importantes, aos momentos guardados para a publicidade social. Sentiu-se fora
do catálogo, fora de moda.
Lembrou-se
da época em que estar ao lado dela, para ele, era motivo de comemoração, digno
de registro. Ele sempre queria guardar os momentos não só no gosto dos beijos,
ou na troca de risadas, mas também em fotografias. Assim podia mostrar ao mundo
virtual a mulher que havia elegido para amar.
Duas
semanas antes, ela ouvira de um amigo, que ouvira em um programa de televisão,
a seguinte frase: o segredo da felicidade em família é a amnésia. Aquele
episódio desolou-a. Aquilo não só provou essa afirmação, como mostrou-lhe
outra: ela precisava da amnésia se quisesse continuar aquele relacionamento, e
o que mais a aterrorizava era que ela não precisava esquecer os momentos ruins,
mas os bons. Estes serviam de comparação constante para as ações do marido. O
passado era um acúmulo de momentos doces, companheiros, intensos, sensuais; o
presente era a rotina, “os tons pastéis” – como disse um outro amigo sobre
outro relacionamento dela. Era até mesmo a indiferença.
Estava
ali, ao seu lado, mas era como se não estivesse. Não foi convidada para a foto
nem mesmo por cortesia, coisa que talvez acontecesse caso ele estivesse na
companhia de qualquer outra pessoa – um amigo, por exemplo.
Talvez
não fosse nada, talvez ela estivesse, como dizem os adágios, “colocando chifre
em cabeça de cavalo”, “fazendo tempestade em copo d’água”. Talvez fosse só a
tão proclamada diferença entre os sexos: homem racional x mulher emocional.
Contudo, para ela, essa diferenciação estava no rol de vários estereótipos
sociais que não aceitava.
Além
disso, quando lembrava o passado, sentia-se traída, enganada! Como alguém podia
mudar tanto? O pior era acreditar que não fora uma mudança, fora uma revelação.
Ele havia personificado um personagem para a conquista, mas outra persona
assumiu o lugar depois do casamento. E o marido não cansava de repetir que o
outro não existia mais. Se quisesse seria aquele que estava ali, o novo homem,
que no fim das contas era o velho homem, o homem comum, o homem socialmente
criado e reproduzido pelos maridos mundo afora (mais um estereótipo social que
não aceitava). Contudo, lembrou-se da sábia personagem do programa de TV, das
suas palavras sobre a amnésia e a felicidade em família. Então percebeu que só
precisava esquecer...
E,
mais uma vez, para manter a saúde momentânea daquela relação (afinal ele
sustentava o lar e cuidava da educação dos filhos), foi impassível: pediu para
olhar a foto e elogiou-a. Assumiu a postura da esposa compreensiva, que tudo
assente - outro estereótipo social que não aceitava.
Assim,
à amnésia, uniu-se a resignação: mistura infalível para o sucesso das relações.













