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domingo, 24 de setembro de 2017

SUCESSO MATRIMONIAL

Estavam na sacada do 10º andar de um prédio comercial. A vista dava para uma parte da cidade ainda não dominada pelos arranha-céus. Podiam-se ver os quintais das casas que ali conviviam com imóveis comerciais, uns poucos prédios, uma avenida que sumia no horizonte, um shopping center, uma piscina abandonada de uma casa colocada à venda havia anos, dentre várias outras coisas que, no fim, resumiam-se, praticamente, a concreto e asfalto. As árvores eram item raro.
Ele gostou daquela escassez de edifícios que cobrissem o horizonte e resolveu aproveitar a vista. Tirou uma foto com a paisagem ao fundo, somente ele e a paisagem, nada mais importava; pelo menos foi isso que ela enxergou. Estava ali, ao lado dele, mas não foi convidada para aparecer na foto, que seria exposta na internet, nas redes sociais. Ela não pertencia mais aos momentos importantes, aos momentos guardados para a publicidade social. Sentiu-se fora do catálogo, fora de moda.
Lembrou-se da época em que estar ao lado dela, para ele, era motivo de comemoração, digno de registro. Ele sempre queria guardar os momentos não só no gosto dos beijos, ou na troca de risadas, mas também em fotografias. Assim podia mostrar ao mundo virtual a mulher que havia elegido para amar.
Duas semanas antes, ela ouvira de um amigo, que ouvira em um programa de televisão, a seguinte frase: o segredo da felicidade em família é a amnésia. Aquele episódio desolou-a. Aquilo não só provou essa afirmação, como mostrou-lhe outra: ela precisava da amnésia se quisesse continuar aquele relacionamento, e o que mais a aterrorizava era que ela não precisava esquecer os momentos ruins, mas os bons. Estes serviam de comparação constante para as ações do marido. O passado era um acúmulo de momentos doces, companheiros, intensos, sensuais; o presente era a rotina, “os tons pastéis” – como disse um outro amigo sobre outro relacionamento dela. Era até mesmo a indiferença.
Estava ali, ao seu lado, mas era como se não estivesse. Não foi convidada para a foto nem mesmo por cortesia, coisa que talvez acontecesse caso ele estivesse na companhia de qualquer outra pessoa – um amigo, por exemplo.
Talvez não fosse nada, talvez ela estivesse, como dizem os adágios, “colocando chifre em cabeça de cavalo”, “fazendo tempestade em copo d’água”. Talvez fosse só a tão proclamada diferença entre os sexos: homem racional x mulher emocional. Contudo, para ela, essa diferenciação estava no rol de vários estereótipos sociais que não aceitava.
Além disso, quando lembrava o passado, sentia-se traída, enganada! Como alguém podia mudar tanto? O pior era acreditar que não fora uma mudança, fora uma revelação. Ele havia personificado um personagem para a conquista, mas outra persona assumiu o lugar depois do casamento. E o marido não cansava de repetir que o outro não existia mais. Se quisesse seria aquele que estava ali, o novo homem, que no fim das contas era o velho homem, o homem comum, o homem socialmente criado e reproduzido pelos maridos mundo afora (mais um estereótipo social que não aceitava). Contudo, lembrou-se da sábia personagem do programa de TV, das suas palavras sobre a amnésia e a felicidade em família. Então percebeu que só precisava esquecer...
E, mais uma vez, para manter a saúde momentânea daquela relação (afinal ele sustentava o lar e cuidava da educação dos filhos), foi impassível: pediu para olhar a foto e elogiou-a. Assumiu a postura da esposa compreensiva, que tudo assente - outro estereótipo social que não aceitava.

Assim, à amnésia, uniu-se a resignação: mistura infalível para o sucesso das relações.

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